Microbiota: qual a relação com o câncer de mama?


Microbiota: qual a relação com o câncer de mama?

Publicado em 09/05/2018 às 14:49



Possuímos bilhões de bactérias em todo o organismo, essa microbiota exerce um papel fundamental no desenvolvimento humano e alterações na composição da mesma podem levar ao aparecimento de doenças. Em um estado saudável temos uma relação de simbiose, na qual esta microbiota tem um papel importante no equilíbrio corporal, pois as bactérias probióticas exercem função protetora contra vários desequilíbrios, inclusive contra o surgimento de doenças por outros micro-organismos, como os fungos. Em casos de disbiose, ocorre uma alteração na composição desta microbiota, com aumento predominante de bactérias gram negativas (patogênicas), expondo o organismo a um maior risco de doenças, como micoses, alterações gastrointestinais, candidíase de repetição, obesidade e outra doenças crônicas não transmissíveis, como o câncer (SIRISINHA, 2016).

As bactérias estão presentes em todos os tecidos do organismo humano, inclusive no tecido mamário. Assim, neste local, de forma semelhante a outros tecidos, também há o risco de alterações da composição da microbiota em decorrência da exposição a determinados fatores ambientais, dietéticos e de estilo de vida, predispondo, consequentemente ao maior risco de doenças (HIEKEN et al., 2016).

O câncer de mama é a principal causa de morte por câncer entre as mulheres. A mama é constituída de epitélio, estroma e um sistema imune mucoso que compõem um microambiente complexo. Recentemente, alguns estudos vêm identificando comunidades microbianas distintas em tecidos mamários de mulheres com tumores malignos quando comparados com mulheres com a doença benigna (HIEKEN et al., 2016).

Uma pesquisa publicada no periódico Applied and Environmental Microbiology (2016), sugere que a composição de micro-organismos nas mamas pode desempenhar um papel no câncer de mama aumentando ou diminuindo o risco de ocorrência. Segundo esse estudo, uma em cada oito mulheres nos EUA são diagnosticadas com câncer de mama durante suas vidas ao longo de suas vidas e a origem etiológica da doença ainda permanece inconclusiva, mas acredita-se ser devido a uma combinação de fatores genéticos e ambientais.

Considerando essa hipótese e a possível relação com as alterações na microbiota mamária, os pesquisadores analisaram o DNA bacteriano encontrado em amostras de tecido mamário de 58 mulheres que iriam passar pela retirada de nódulos ou da mama completa pelo processo de mastectomia devido a tumores benignos ou malignos, e também as amostras de 23 mulheres saudáveis que passaram pela pelos procedimentos de redução ou aumento das mamas. Foi observado que mulheres com câncer de mama tinham níveis maiores de determinadas cepas bacterianas, como as da família Enterobacteriaceae, Staphylococcus e Bacillus, e mulheres sem a ocorrência de câncer tinham níveis maiores de outros tipos de bactérias, entre elas, as do gênero Lactococcus e Streptococcus. As bactérias encontradas em maior quantidade em pacientes com câncer de mama tinham a capacidade de causar danos ao DNA, podendo constituir um fator predisponente do câncer (URBANIAK et al, 2016).

Segundo o estudo, bactérias do gênero Enterobacteriaceae e Staphylococcus demonstraram a capacidade de induzir quebras de DNA de cadeia dupla, que constitui o tipo de dano mais prejudicial ao DNA. Este dano induzido por bactérias pode não ser suficiente para promover o desenvolvimento do câncer, uma vez que o hospedeiro precisa ser geneticamente susceptível. Assim, as mulheres com mutações que impedem o reparo do DNA, como na união terminal não-homóloga (esse tipo de mutação permite a quebra de ambas as fitas da dupla-hélice), podem ser mais susceptíveis ao desenvolvimento de  câncer de mama quando comparadas às mulheres que possuem também cepas de bactérias patogênicas nas glândulas mamárias mas não possuem essa mutações (URBANIAK et al, 2016).

O gênero Bacillus não induz rupturas de cadeias duplas de DNA, mas essa cepa pode metabolizar o hormônio progesterona em 5-alfa-pregnano-3,20-diona (metabólito que estimula a formação de tumores por aumentar a proliferação celular) (WIEBE, 2006).

Em contrapartida, bactérias dos gêneros Lactococcus e Streptococcus apresentam propriedades anticarcinogênicas e podem desempenhar um papel na prevenção. Lactococcus ativa as células NK, aumentando a imunidade celular e o Streptococcus protege contra danos ao DNA causados ​​por espécies reativas de oxigênio, produzindo metabólitos antioxidantes que neutralizam os radicais peróxido e superóxido (KOSAKA, 2012; KOLLER, 2008; URBANIAK et al., 2016).

É importante frisar que a ingestão de quantidades significativas de alimentos ricos em fibras, como frutas, verduras e legumes é essencial para o aumento da população destas bactérias e, consequentemente, da produção desses ácidos graxos (DERRIEN, 2017).

Outros estudos precisam ser realizados para saber ao certo se esse dano ao DNA pode ocasionar mutações que causam o câncer e se as diferenças nos perfis bacterianos são a causa ou consequência da doença. Até o momento, os pesquisadores pressupõem que a microbiota da mama possa ser, futuramente, um biomarcador para exames de câncer ou para o desenvolvimento de probióticos para potencializar os resultados do tratamento.

Através da modulação da microbiota do organismo podemos manter uma boa saúde intestinal e até prevenir patologias. A adequação da dieta visando uma alimentação que ajude nessa modulação é uma das principais condutas da nutrição funcional!

Veja mais sobre como a Nutrição Funcional e a alimentação orgânica podem contribuir para a prevenção e tratamento do câncer. Assista!

Referências bibliográficas:

URBANIAK, C. et al. The Microbiota of Breast Tissue and Its Association with Breast Cancer. Applied And Environmental Microbiology; 82(16):5039-48, 2016.

SIRISINHA, S. The potential impact of gut microbiota on your health: Current status and future challenges. Asian Pacific Journal Of Allergy And Immunology; 34(4):249-264, 2016.

HIEKEN, T.J. et al. The Microbiome of Aseptically Collected Human Breast Tissue in Benign and Malignant Disease. Scientific Reports; 6:30751, 2016.

DERRIEN, M. Rethinking Diet to Aid Human–Microbe Symbiosis. Trends In Microbiology; 25(2):100-112, 2017.

WIEBE J.P. Progesterone metabolites in breast cancer. Endocr Relat Cancer; 13(3):717-38, 2006.

KOSAKA, A. et al. Lactococcus lactis subsp. cremoris FC triggers IFN-γ production from NK and T cells via IL-12 and IL-18. International Immunopharmacology; 14(4):729-33, 2012.

KOLLER, V. J. et al. Impact of lactic acid bacteria on oxidative DNA damage in human derived colon cells. Food And Chemical Toxicology; 46(4):1221-9, 2008.

 


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